Tiros nos pés

Tiros nos pés

A FPF quis associar-se ao povo de Cabo-Verde na dor pela catástrofe natural que o afectou, mas podiam ter “inventado” outra forma

 JPT1393Não compreendo, juro que não compreendo, o que levou a FPF a marcar o jogo particular com Cabo Verde. Tal como não compreendi o que foi marcado em preparação para o Mundial 2010 ou o mítico jogo com Angola, algures no início da década passada. São jogos que têm tudo para correr mal, das mais variadas formas, sendo que à partida só uma coisa está garantida: não vai ser um sucesso em toda a linha.

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Bem sei que a FPF se quis associar ao povo cabo-verdiano na dor pela catástrofe natural que o afectou. Mas podiam ter “inventado” outra forma, outro contexto.

Em primeiro lugar, o jogo só passou a ser de beneficência no momento em que o árbitro apitou para começar. Até lá, era um jogo da Selecção A de Portugal frente a uma selecção que, hoje, está no top das Selecções Africanas. Os patrocinadores precisam de exposição, bem o sabemos, e como tal o jogo foi alvo de grande cobertura mediática e promocional.

Se nós levámos um Portugal B, era assim que devia ter sido apresentada a nossa selecção. Resumindo: um jogo de beneficência entre Portugal B e Cabo Verde. E não há desculpa para se poder afirmar que era Portugal A, uma vez que a Selecção A jogou no Domingo à noite, logo não poderia ter realizado este jogo na 3ª feira. Mas como o calendário internacional agora obriga os jogos internacionais a serem disputados de 5ª a 3ª feira… só ficava mesmo a faltar termos jogado fora de uma data oficial!

Passando à lista dos convocados, e por muito respeitáveis que sejam as opções (e são-no na esmagadora maioria dos casos), não são as partes que estão em causa, mas o todo. Aquilo é uma Selecção B. Com a agravante de que, ainda que a maioria dos jogadores presentes poderá vir a fazer parte das opções de Portugal, a verdade é que juntá-los em 2 dias e metê-los a jogar tem tudo para correr mal. E pode muito bem ajudar a “queimar” jogadores.

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Por fim, nota para o adversário. No imaginário imediato colectivo, Cabo Verde deve ser uma equipa de bons rapazes recrutados entre coqueiros. Na realidade é uma Selecção que já impõe algum respeito, de um nível médio, com boas individualidades com alguma experiência internacional. Ou seja, é um jogo em que um Portugal a sério é favorito… mas calma. Junte-se a isso o contexto social do jogo, e sem pingo de “saudosismo” ou “paternalismo” idiotas, mas de forma factual: é um embate entre colonizador e colónia. Foi assim no passado, e esse passado não é, nada, longínquo. Portanto, os níveis de concentração e de importância atribuída a este jogo pelos Cabo-Verdianos são muito superiores. Daí, por exemplo, num jogo disputado em Portugal estarem as bancadas repartidas no apoio a ambas as equipas.

Quanto ao jogo em si, pouco há a dizer: Cabo-Verde mostrou as suas armas, foi e fez por ser feliz ; Portugal jogou melhor, trabalhou melhor a bola, mostrou mais qualidade, mas não teve a sorte do seu lado. Também convém, quando se fala deste e outros jogos, não resumir tudo ao resultado, pois ouvir falar de humilhação ou vergonha (como ouvi) num jogo particular, perdido contra uma Selecção de nível médio, por dois golos, é qualquer coisa a meio caminho entre apenas a estupidez e a demência.

Luciano02

crónica: Luciano Rodrigues

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